Profissionais trabalham o enfrentamento ao racismo em oficinas

Grupos discutem o racismo institucional em oficina. (Crédito: Bruna Carvalho)
Grupos discutem o racismo institucional em oficina. (Crédito: Bruna Carvalho)

O evento Racismo Institucional: Fórum de Debates – Educação e Saúde, promovido pelo Centro de Educação e Apoio para Hemoglobinopatias (Cehmob-MG), no dia 30 de maio, reuniu cerca de 100 participantes, com o objetivo de promover o enfrentamento ao racismo institucional.

Eles se dividiram em grupos de aproximadamente 20 participantes e, liderados por dois coordenadores, debateram e participaram de dinâmicas acerca do tema. As atividades resultaram em um miniprojeto, elaborado por cada um dos cinco grupos e apresentado aos participantes em plenária, ao final do encontro.

Nas oficinas, foram trabalhados conceitos previamente apresentados nas palestras, tais como identidade, raça, cor, mito da democracia racial brasileira, racismo, preconceito, discriminação, ações afirmativas, dentre outros.

A discussão histórica sobre o negro no Brasil e o racismo, desde a época da abolição da escravatura, também foram pautas dos grupos. “Após a abolição, houve a perda do direito a terra e toda a negação à cultura negra, que tornou ilegal a capoeira, a religião e a música que fazia parte da história dos escravos”, ponderou Tayane Lino, coordenadora de um dos grupos. “As famílias foram separadas, os negros andavam descalços e eram vistos como perigosos e agressivos para as famílias brancas da época. Foi quando o racismo começou a ser institucionalizado”, continuou.

Para Eliana Santos, assistente social da Associação de Pessoas com Doença falciforme e Talassemia do Estado de Minas Gerais (Dreminas) e funcionária da Prefeitura de Sabará, o racismo institucional é um tema difícil. Negra, ela se coloca como personagem principal no assunto. “Eu estou neste lugar. É difícil, doloroso e angustiante. Tenho muito que aprender sobre saúde da população negra e racismo. É preciso gritar por aqueles que não gritam”, opina.

“Racismo é uma luta de ideias, mais difícil de combater do que o que é concreto e visível”, opinou Erico Sousa, secretário adjunto de Direitos Humanos de Contagem. “Como a gente enfrenta uma ideia? É necessário que o mito da democracia racial brasileira seja confrontado com a realidade”, propôs.

Debate

Um dos temas trabalhados no grupo coordenado por Denise Pacheco, da Coordenação Nacional das Entidades Negras, foi o pertencimento e origem do negro como fatores determinantes na luta contra o racismo.

Grupo durante dinâmica. (Crédito: Bruna Carvalho)
Grupo durante dinâmica. (Crédito: Bruna Carvalho)

Antes do início das discussões, os participantes se apresentaram falando um pouco de suas origens, retratando a diversidade presente no grupo: descendentes de africanos, europeus, famílias pobres e ricas, representantes de diversas ocupações.

A desconstrução do racismo foi tema comum a todas as oficinas. Para Denise Pacheco, da Coordenação Nacional das Entidades Negras, o exercício da desconstrução dá condições para enfrentar e combater o racismo. Desconstruir o racismo, não só no ambiente de trabalho, mas também em outros grupos sociais, como igreja, escola e vizinhança, também foi uma ação fundamental apontada no enfrentamento no problema.

Para a médica pediatra Ana Paula Chagas, do Cehmob-MG, levar o debate para dentro de casa é igualmente importante. “Com os smartphones e tablets, os jovens pararam de observar e enxergar o que acontece nas ruas. É preciso achar uma forma de chamar a atenção deles para essa questão”, problematizou.

Grupo assiste a vídeo durante oficina. (Crédito: Bruna Carvalho)
Grupo assiste a vídeo durante oficina. (Crédito: Bruna Carvalho)

Ações

Apresentadas em plenária, as ações propostas pelos grupos foram variadas, sempre respaldadas pelos pilares da educação e da saúde.

Reconhecer o racismo na sociedade brasileira, sensibilizar e informar as pessoas, quebrar o tabu do silêncio e buscar suportes de comunicação, como mídias sociais, veículos e material de divulgação, para engajar as pessoas, foram algumas das propostas que surgiram durante o encontro.

Ações práticas, como proporcionar espaços para reflexão nas instituições, seja por meio de rodas de conversas, palestras, dinâmicas e apresentação de filmes, também foram mencionadas.

Divididos em subgrupos, participantes debatem sobre imagens. (Crédito: Bruna Carvalho)
Divididos em subgrupos, participantes debatem sobre imagens. (Crédito: Bruna Carvalho)

Para Tayane, a realização do fórum foi importante para buscar entender e se posicionar melhor diante do assunto. “É preciso desmistificar a raça como biologia, e passar a tratá-la como construção social”, afirmou. Ricardo Castro, um dos coordenadores das oficinas, considerou o evento como um espaço legítimo para a construção coletiva. “O racismo não é só problema de preto. É também do branco e da branca”, concluiu. Para o motorista do Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico da Faculdade de Medicina da UFMG (Nupad), Cristóvão Maria, deve haver mais debates sobre o tema: “É importante promover conhecimento, trocar visões, ouvir o outro. Espero que outros eventos assim sejam realizados”.

Durante o encerramento, a psicóloga do Cehmob-MG e uma das organizadoras do fórum de debates, Débora Paiva, pontuou a importância da ação dos multiplicadores. “Evento abriu uma porta para mais pessoas entrarem. De um público de 100, podemos levar o que foi discutido aqui para todo o Brasil”, concluiu.