
A gestante com doença falciforme requer atenção especial por parte dos serviços de saúde, devido a possíveis complicações mais graves e comuns a este grupo. “Trata-se de um pré-natal de alto risco, que exige atendimento especializado e multidisciplinar”, destacou a estudante de Medicina da UFMG, Larissa Rodrigues, durante Encontro Acadêmico sobre Gestação de Alto Risco em Doença Falciforme (EAGAR-df), promovido pelo Centro de Educação e Apoio para Hemoglobinopatias (Cehmob-MG). O evento, realizado na Faculdade de Medicina, no sábado, 15 de fevereiro, reuniu estudantes de Medicina e diversos especialistas interessados no assunto.
Durante o Encontro, estagiários de Medicina de projetos do Cehmob-MG apresentaram dois estudos de mestrado sobre o tema. Os comentários foram feitos pelas autoras, a obstetra Vanessa Fenelon da Costa e a hematologista Patrícia Santos Resende Cardoso, e pelos orientadores, o coordenador acadêmico do Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico da Faculdade de Medicina (Nupad), Marcos Borato Viana, e a professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG, Regina Amélia Lopes Pessoa de Aguiar.

A apresentação dos resultados obstétricos, hematológicos e neonatais das gestantes com doença falciforme, comparados aos de um grupo sem a doença, foi feita pela estudante Andrezza Dambroz a partir da dissertação de Vanessa Fenelon, intitulada “Gravidez na paciente com doença falciforme: resultados maternos e perinatais”.
Resultados maternos e perinatais
O estudo mostrou que as gestantes com doença falciforme apresentam mais complicações do que a população em geral. “Foram encontradas diferenças significativas referentes à taxa de cesariana, infecção urinária, trombose venosa profunda, peso ao nascimento e admissão na Unidade Neonatal de Cuidados Progressivos”, destacou Andrezza.

A interrupção da gestação antes do período normal também é mais comum na doença falciforme. No caso da anemia falciforme, um dos genótipos da doença, é 13 vezes maior a chance de ocorrer um parto prematuro, o que aumenta para 22 vezes no caso de ser associada à crise de dor. “Uma paciente com crise álgica deve ser tratada com urgência”, pontuou Vanessa. “A partir dessa consideração e do acompanhamento em conjunto com o serviço de hematologia, já temos tido melhoras na condição da gestante,” observou. Junto à síndrome torácica aguda, as crises de dor são também a principal causa de internação destas mulheres.
Óbito materno e near miss
Outros números importantes foram trazidos pela estudante Luanna Rocha, com a abordagem do “Estudo das complicações e fatores determinantes de óbito materno e near miss em gestantes com doença falciforme”. A dissertação, da hematologista Patrícia Cardoso, teve como foco analisar as complicações potencialmente graves e ameaçadoras de óbito (near miss) ou que levaram a óbito materno.
Nesses termos, as complicações atingiram um terço das mulheres, tendo ainda, como principais causas, as crises de dor e complicações pulmonares. O óbito ocorreu em cinco das 104 gestantes acompanhadas, com um caso por infecção do trato urinário e os demais decorrentes da síndrome torácica aguda.
Considerando-se os genótipos da doença, o estudo mostrou que gestantes com anemia falciforme e com hemoglobinopatia SC apresentam o mesmo risco de complicações graves e de morte materna. Para Luanna, essa foi uma das principais contribuições da pesquisa: “Os resultados mostram que o cuidado com a gestante não deve ter distinção neste caso”.
A autora da dissertação, Patrícia Cardoso, ressaltou que deve ficar o alerta para uma atenção especial com a gestante. “Necessitamos de uma equipe multidisciplinar e também de capacitação profissional para o correto acompanhamento desta paciente, de forma a identificar precocemente os fatores de risco e reduzir as complicações futuras”, declarou.

“Precisamos de delicadeza no cuidado com a mulher com doença falciforme, temos que desconfiar dos incômodos da paciente. Ainda falta muita informação para a identificação e acompanhamento correto de uma gestação de alto risco”, afirmou a professora e orientadora das dissertações apresentadas, Regina Aguiar.
Experiência acadêmica
“Após um mês de preparação, participar deste encontro foi uma oportunidade e uma forma de reconhecimento muito bacana”, declarou a estudante de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas, Ana Flávia Dinardi. Para ela, apesar do conhecimento adquirido durante o estágio no Cehmob-MG, apresentar sobre a doença falciforme exigiu maior preparação e aprofundamento no tema.
A preparação dos estudantes para o Encontro, com o estudo das dissertações, durou cerca de um mês. “Inicialmente esse evento seria uma prévia para o workshop que teremos em abril, sobre especialidades na doença falciforme, mas acabou tomando uma proporção maior”, conta a supervisora técnica do Cehmob-MG, Milza Cintra. “Houve muita integração e aprendizado entre os estudantes e um contato grande com as autoras dos estudos e orientadores”, observa.

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Outros depoimentos: “Esse evento tem um simbolismo muito importante, é um marco do avanço que tivemos até agora em relação à doença falciforme”. José Nelio Januario, diretor do Nupad e coordenador técnico do Cehmob-MG. “É necessário produzir conhecimento e sensibilizar, formar recursos humanos. Não conseguimos fazer isso, nessa amplitude, sem os acadêmicos. Essa experiência é um dever nosso, faz parte do aprendizado”. Marcos Borato Viana, coordenador acadêmico do Nupad e orientador das dissertações apresentadas. “Presto minhas boas-vindas e reconhecimento a esse importante evento. É uma satisfação participar deste encontro de alunos e espero que outros eventos assim possam se repetir”. Tarcizo Nunes, diretor eleito da Faculdade de Medicina da UFMG. |
“Tentamos simplificar ao máximo os estudos para apresentação e para isso contamos com a ajuda de especialistas”, explica Luanna Rocha. “Meu saber técnico melhorou muito”, conta. Ainda, segundo a estudante Andrezza, antes do encontro a vivência em obstetrícia era uma incógnita: “A preparação para o evento coincidiu com meu internato em obstetrícia, o que foi muito bom”. Para a hematologista Patrícia, foi uma atividade muito gratificante: “Ver meu conhecimento difundido, não restrito a uma dissertação, me faz sentir realizada!”.
O Cehmob-MG é uma parceria entre o Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico da Faculdade de Medicina da UFMG (Nupad) e a Fundação Hemominas. Dentre os projetos desenvolvidos estão o Projeto Aninha, que tem como objetivo atender integralmente as gestantes com doença falciforme, e o Projeto Atenção Especializada (PAE), que busca gerar conhecimento sobre as especialidades médicas envolvidas no atendimento ao paciente com doença falciforme e gerar protocolos de atendimento para uso na rede assistencial de Belo Horizonte e, posteriormente, de todo o Estado de Minas Gerais.
Todas as apresentações realizadas durante o evento estão disponíveis no Acervo do portal Cehmob-MG.


