
O cuidado cardiológico na doença falciforme será um dos temas do II Workshop do Projeto Atenção Especializada (PAE). O evento, realizado pelo Centro de Educação e Apoio para Hemoglobinopatias (Cehmob-MG), parceria entre o Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico (Nupad) da Faculdade de Medicina da UFMG e Fundação Hemominas, será nos dias 1º e 2 de abril, em Belo Horizonte.
Para o cardiologista do Hospital das Clínicas da UFMG, Christiano Gonçalves, palestrante do evento, as complicações da doença falciforme relacionadas ao coração ainda são pouco conhecidas e estudadas: “Nas últimas décadas, com o aumento da sobrevida das pessoas com doença falciforme é que se percebe uma maior prevalência da doença cardíaca”.
Segundo o especialista, a hipertensão pulmonar, comum na doença falciforme, é um dos principais fatores associados aos problemas do coração. A alteração, causada por uma resistência pulmonar elevada associada à também elevação da pressão arterial pulmonar, compromete o funcionamento cardíaco ao exigir um esforço maior do órgão para bombeamento do sangue até os pulmões.
Ainda, para a clínica Maria Carmen Vasconcelos, que atende a pacientes com doença falciforme na Fundação Hemominas, a hipertensão pulmonar tem sido cada vez mais reconhecida na patologia e está relacionada a marcantes anormalidades na capacidade de exercício dos pacientes. “É uma complicação comum em adultos com a doença e está associada à alta taxa de morbidade e mortalidade”, observa Maria Carmen.
A médica, que também estará presente ao workshop, cita ainda a anemia hemolítica crônica como fator de complicações cardíacas na doença falciforme. Causada pela destruição dos glóbulos vermelhos, a anemia hemolítica leva à dilatação da câmara cardíaca e à vasculopatia proliferativa, com a lesão progressiva e sistêmica dos vasos sanguíneos.
Outras alterações possíveis são as arritmias cardíacas, que podem levar à morte súbita, e a insuficiência cardíaca diastólica, quando o coração não consegue se encher de forma adequada no período de relaxamento entre as contrações e compromete o bombeamento do sangue para o restante do corpo.
Atendimento especializado
Diante deste cenário, Christiano Gonçalves alerta para a importância do profissional de saúde estar ciente das possíveis complicações cardíacas, da tendência de aumento das ocorrências e do diagnóstico clínico na doença falciforme. “O cuidado adequado com o paciente neste perfil exige ainda correta solicitação e interpretação dos exames complementares para rastreamento, diagnóstico e acompanhamento”, observa.
Para Maria Carmen, o atendimento cardiológico na doença falciforme deve abranger desde a ação terapêutica, quando esta se faz necessária, até a abordagem que anteceda uma possível descompensação cardíaca, com a implementação de protocolos que englobem a doença e suas particularidades. “Com isso podemos otimizar a assistência médica a esta população”, declara.
Além da cardiologia, o II Workshop do PAE irá abordar a oftalmologia e a saúde da mulher na doença falciforme a partir de debates e discussão de casos clínicos.


